Primeira parte da entrevista com Gilberto Ventura, representante no Brasil do ISAS

Por Miriam Sanger, de Israel

ventura-microphone

Em entrevista ao Instituto de Estudos Sefaraditas e dos Bnei Anussim (ISAS) do Netanya Academic College de Israel, o rabino, professor e ativista Gilberto Ventura falou sobre sua atuação junto aos bnei anussim brasileiros e a campanha pelo reconhecimento do papel histórico dos cristãos-novos na própria formação do Brasil. Recentemente nomeado pelo ISAS como seu representante no Brasil, Ventura tem objetivos claros: trabalhar em campo para legitimizar a causa dos bnei anussim, ajudá-los a se articularem melhor e muni-los de ainda mais conteúdo judaico, de forma a aprofundar seus laços com Israel e com o judaísmo.

 

Energia e determinação são elementos que não faltam ao rabino e professor Gilberto Ventura. Paulistano e com formação rabínica (smichá) pela yeshivá Or Nissim, em Jerusalém, ele se destaca no universo até pouco tempo desconhecido dos bnei anussim, os descendentes dos judeus que foram forçados pela Igreja Católica de Portugal à conversão e chegaram ao Brasil depois de sua expulsão da Península Ibérica, a partir do século 16. Tomou para si o papel de congregar as comunidades dispersas pelo país, apoiando-as em sua organização e no fortalecimento de seus laços com o judaísmo. Por seu destaque junto a esses grupos, foi recentemente nomeado como representante do ISAS junto aos bnei anussim brasileiros.

 

Confira a seguir a entrevista que ele concedeu ao Instituto em um café na avenida Paulista, o coração da cidade que, segundo ele, é tão judaica em suas origens.

 

ISAS: Como começou sua atuação junto à comunidade judaica brasileira?

Gilberto Ventura: Realizei meus estudos em Israel, a partir de 1992, e formei-me rabino ali, em 2012. Eu e minha mulher, Jacqueline, moramos durante três anos em Mea Shearim, bairro ortodoxo de Jerusalém. Lá eu estudei, me casei e vivi. No início do nosso casamento, eu apenas estudava, enquanto era ela quem mantinha nossa casa. Costumo dizer que ela era a minha Rachel, esposa de Rabi Akiva que o sustentara durante seus anos de estudo. Eu tinha, então, 20 anos. Um dia viemos para o Brasil para celebrarmos Pessach com a família e comecei a sentir muita vontade de ensinar aqui o que havia aprendido por lá. Tenho plena consciência de que tudo o que aconteceu na minha vida foi guiado por HaShem. Não tenho dúvidas disso. Tudo o que Deus faz tem um motivo, e nossa história sempre foi marcada por sinais muito claros.

ISAS: Como foram seus primeiros anos de volta no Brasil?

GV: Uma loucura! Imediatamente, eu e todos que estavam à minha volta perceberam a empatia e a sinergia que eu tinha com as crianças e com os jovens, tanto nas escolas quanto nas sinagogas. Mas, até esse momento, confesso: ainda não estava claro para mim qual era o meu papel como judeu, paulistano e brasileiro.

ISAS: Houve algum evento em especial que o levou a aprofundar essa reflexão?

GV: Sim. Eu costumava me vestir como ultraortodoxo, com chapéu e barba comprida. Afinal, tive formação em Mea Shearim, o mais ortodoxo dos bairros de Israel. Um dia, em plena avenida Paulista, cruzei com um rapaz que sussurrou para mim, em tom de desprezo: ‘Judeu, judeu’. Eu era, então, recém-chegado de Israel. Não me senti acuado nem com medo. Assim, perguntei a ele: ‘Pois não, posso te ajudar?’, com a maior calma. Ele obviamente não esperava por isso. Certamente acreditou que eu reagiria com o medo que era típico dos judeus do shtetel (antigas aldeias judaicas europeias). ‘Você fala hebraico?’, ele perguntou, visivelmente sem prumo. ‘Sim, e você?”. O que ele me respondeu? ‘Não falo, pois sou brasileiro.’ A forma como ele me disse aquilo foi uma afronta. Puxa, há tanto tempo nós, judeus, temos que ouvir que nós somos estrangeiros em nossos próprios países! Respondi apenas: ‘Saiba que eu também sou brasileiro e muito mais do que isso: sou corinthiano’. E saí andando. Quando olhei para trás, vi que ele permanecia imóvel, boquiaberto. Aquele golpe dele doeu e percebi que eu precisaria operar em mim uma profunda mudança a partir dessa experiência.

ISAS: Você atuava de alguma maneira junto à comunidade judaica ou dos bnei anussim nessa época?

GV: Eu ainda não havia descoberto os bnei anussim – isso aconteceu apenas alguns anos depois dessa passagem. A verdade é que desde os 14 ou 15 anos eu acalentei um sonho: ser rabino e político. Eu compreendia isso como uma missão de tikun olam (reparação do mundo). No entanto, ao voltar de Israel, eu não sentia nenhum interesse pelo Brasil. Pouco me interessava pela política. Mas quando esse episódio da avenida Paulista aconteceu, eu entendi que não poderia continuar me comportando assim. Compreendi que, no fundo, em relação a mim, individualmente, talvez aquele rapaz tivesse alguma razão. Na hora eu lembrei que meus pais tinham um livro que se chamava “Os judeus em Portugal”. E lembrei que a ligação entre os judeus e o Brasil era muito antiga, datada desde o descobrimento do país. Esse foi meu gancho, e assim tudo começou. Eu tinha então cerca de 20 anos e passei a pesquisar mais o tema. Sempre ouvimos dizer que havia um judeu dentro das embarcações portuguesas que chegaram ao Brasil. Um judeu? Que nada! Toda aquela imensa empreitada de conquistas marítimas portuguesas e espanholas foi muito judaica. Envolvi-me muito com o assunto e passei a divulgá-lo através de músicas que eu compunha, em contações de histórias e em apresentações teatrais. Eu já era professor de diversas escolas judaicas nessa época e me pareceu urgente começar a falar sobre esse tema também com os alunos. Naquele primeiro momento, eu nem imaginava que existiam bnei anussim, mas percebi que aquele conteúdo histórico seria uma ferramenta que naturalmente ajudaria a neutralizar no Brasil o antissemitismo e promover o filossemitismo, ou seja, o amor ao judeu. Afinal, se as pessoas souberem que nosso país tem uma origem judaica, isso pode trazer uma percepção diferente e positiva de nosso povo. Não só isso: essa nova realidade pode curar uma ferida que existe entre os judeus brasileiros a respeito de sua identidade. Afinal, somos brasileiros judeus ou judeus brasileiros? Essa questão causa um óbvio desconforto emocional e faz com que a pessoa não consiga se colocar para si mesmo ou para a realidade externa de forma adequada. Por isso vemos um cara que vai ao jogo do Corinthians, torce e se descabela, e depois o encontramos na sinagoga – e ele ali se comporta de forma completamente diferente. Ou seja, fora da sinagoga ele é um brasileiro que nada tem a ver com o judaísmo. Ele se esconde como judeu porque lhe parece uma imagem incompatível com a de brasileiro. Mas, quando ele está na sinagoga, usa outro nome – o  judaico –, usa kipá… Para mim, isso é um sério desajuste e me levou a levantar uma bandeira: devemos repensar nossa identidade de modo a deixarmos de viver essa ‘dupla personalidade’.

ISAS: Você acredita que exista outro país, além de Israel, em que o judeu consegue conciliar tão bem esse aspecto?

GV: Acho que o americano, por exemplo, tem menos problemas que o brasileiro. Quando eu e minha esposa vivemos em Israel, eu fiz ‘bicos’ como garçom em casamentos judaicos. Lá vi chassídicos ortodoxos celebrando e dançando abraçados à bandeira dos Estados Unidos. Creio que isso acontece porque aquele é um país com muita consciência de suas raízes judaicas, então fica mais fácil essa demonstração. Alguns pensam que isso enfraquece a ligação entre o judeu na Diáspora e Israel. Não concordo. Creio que, trabalhando da forma certa, essa postura fortalece o judaísmo e, consequentemente, a conexão das comunidades com Israel. Para que isso aconteça, nós precisamos compreender que pode haver uma identidade brasileira que é também judaica e que, quando isso acontecer, essas duas coisas não se separarão mais. Veja o exemplo dos habitantes da minha cidade, São Paulo. Há aqui índios, libaneses, bolivianos e japoneses, entre muitos outros, que mantêm suas tradições ancestrais ao mesmo tempo em que vivem sua brasilidade.

Em seu livro Os Judeus que Construíram o Brasil, a professora Anita Novinsky escreveu: “Os bandeirantes consideravam a terra sua. Por isso, a exemplo dos judeus que conquistaram Canaã, teriam vindo para conquistar a Nova Canaã (América), que achavam ser deles.[1]’ Essa foi a perspectiva daqueles homens, entre os quais haviam vários judeus. Eu caminho pela avenida Paulista e penso que foi propriedade de Fernão Dias, que por sua vez era casado com uma judia e com ela teve filhos judeus. Vejo a Catedral da Sé e sei que lá está enterrado Bartolomeu de Gusmão, um padre reitor que foi processado pela Inquisição por ser judeu. O bandeirante cristão-novo Raposo Tavares, que virou até nome de rodovia, foi um dos precursores da liberdade no Brasil, segundo as pesquisas da professora Anita. Sigo para o Pátio do Colégio, ponto inicial da criação de São Paulo, chamo o padre de lá e pergunto: ‘Quando vocês vão colocar aqui uma placa falando da origem judaica do padre José de Anchieta, que era bisneto de um rabino espanhol?’(nota: a mãe de José de Anchieta era originária das Ilhas Canárias e filha de cristãosnovos).Ou seja, a minha cidade é judaica! Sem tirar o mérito de outras identidades, claro, mas que é também judaica, ah, isso ela é. Acho importantíssimo que os paulistanos conheçam as origens judaicas de nossa cidade assim como os brasileiros em geral devem conhecer as origens judaicas de nosso país.

ISAS: Como tudo isso trouxe você ao tema dos bnei anussim?

GV: O primeiro que fiz foi levar essa minha percepção de ‘Brasil judaico’ para meus alunos de escolas judaicas e de sinagogas de São Paulo. Eu mesmo comecei a ler cada vez mais sobre o assunto e foi assim que descobri que os bnei anussim continuam existindo, esses legítimos descendentes de todos aqueles judeus forçados pela Igreja Católica Portuguesa à conversão. Mas, até aquele momento, eu não lidava com esse tema cotidianamente. Até que, certo dia, fui a Recife para dar uma palestra para a comunidade judaica local. E já estava tão interessado nesse tema que, espontaneamente, concebi um cordel. Na verdade, eu digo que foi um ’download‘ da música, porque eu a escrevi em 10 minutos. Eu e minha esposa a apresentamos em um festival de música no Clube Hebraica, em São Paulo, e recebemos três prêmios. Fomos ovacionados! “Bar ou mitsvá”, se chamava, e conta sobre a confusão de uma bat anussim que já não se lembrava do sentido de suas tradições judaicas.

ISAS: Você ganhou alguns desafetos na comunidade judaica brasileira em um desses festivais de música, com um rap que tratava sobre a exclusão social desses grupos.

GV: Sim. Compus um rap de protesto. Antes eu havia escrito um samba, que conta toda a história dos cristãos novos expulsos da Península Ibérica que chegaram fugidos ao Brasil. Eu tinha, naquela época, cerca de 1,2 mil alunos na comunidade judaica paulista. Eu estava trabalhando em sete escolas ao mesmo tempo, dando aulas e contando histórias. Na verdade, eu só apresentei a música por insistência do organizador do festival. Ela abertamente critica a exclusão social dentro da comunidade. Isso incomodou parte do público, e algumas pessoas presentes até deixaram o local. Mas a maior parte nos ovacionou e o público jovem, em massa, adorou. Sentir esse apoio e esse retorno foi maravilhoso.

ISAS: Você acredita que a nova geração está mais aberta à crítica e ao acolhimento dos bnei anussim?

GV: Creio que sim. Tenho nas minhas mídias sociais, somando todos os meus perfis, mais de 60 mil pessoas. Há ali muitos jovens da comunidade judaica que, quando me vêem, se aproximam de mim para comentar comigo suas impressões. Eles me provaram que existe sim uma possibilidade diferente de convivência. Não tenho dúvidas da importância da crítica: é fundamental fazer com que a comunidade reflita e discuta sobre os temas que nos tocam, ainda que haja discordâncias. Afinal de contas, toda a unanimidade é burra.

ISAS: Como foram seus primeiros contatos pessoais com os bnei anussim?

GV: Uma vez, eu estava em um seminário de pequenas comunidades judaicas do interior de São Paulo e, na hora de ir embora, dei de cara com o sr. Joaquim Galvão, que era presidente da Confederação Israelita do Rio Grande do Norte. Olhei para aquele homem e disse, espantadíssimo: ‘Então vocês existem! Você é um daqueles?’ E ele era! ‘Eu quero conhecê-los!’ Ele então me convidou para visitá-los. Isso foi há 11 anos.Fomos para o Rio Grande e lá conheci também o seu João Medeiros, senhor de barba branca, de 70 anos, tsitsit à vista, calça preta e camisa branca, tudo como manda o figurino – exceto o chapéu, que era de palha. Achei o máximo! Ele é militar, engenheiro de aviação. “Seja muito bem-vindo, mas vou lhe avisar: se disser que nós temos que nos converter, vou lhe dizer ‘aqui, aqui pro senhor’!”, ele disparou, me fazendo uma ‘banana’ com os braços. Isso já no aeroporto. A esposa dele, dona Marlene, também é bat anussim. Todos os filhos do casal já fizeram aliá: a filha deles se casou com um israelense, inclusive, e sua neta fez tsavá (exército). Queiram ou não, o seu João é ‘o’ rabino do Rio Grande do Norte. Ele nos deu a oportunidade de ouvir as histórias pessoalmente e em primeira-mão, e não através de livros ou vídeos. Ele nos contou, por exemplo, do oratório que havia na casa dos pais dele, que só ficava descoberto quando havia um visitante cristão por perto. ‘Quando vinham os nossos, eles o cobriam de novo’, ele nos contou. E outras histórias maravilhosas, como a resposta do pai dele ao fato de as crianças da família não estudarem nos colégios de padres ou de freiras que ficavam no bairro. ‘Porque nós não somos desse povo. Nós somos do povo que escreveu a Bíblia’, o pai de seu João respondia. O incrível é que o seu João só ‘descobriu’ os judeus em uma homenagem às vítimas do Holocausto no clube Hebraica, do Rio de Janeiro, da qual ficou sabendo pelo rádio, há cerca de 40 anos. Então ele entendeu que o povo a que sua família pertence ainda existe. Até aquele momento, ele imaginava que todos os judeus eram, de alguma forma, cristianizados e oficialmente seguidores de alguma vertente cristã.

ISAS: O que você fez então com essa nova informação, a de que os bnei anussim realmente existem?

GV: Voltamos transformados daquela viagem. Eu trabalhava então na escola Beit Yaakov, da família Safra. Fui falar com a Ester, a proprietária, a quem, mais tarde, entreguei um exemplar do livro escrito pelo ‘seu’ João, Nos Passos do Retorno. ‘Estamos contando para os nossos alunos a história dos judeus de acordo com a versão dos nossos detratores’, eu disse. Ela me ouviu atentamente e me mandou passar a entrar nas salas de aula com os professores de História para ensinar mais a respeito da história judaica do Brasil aos nossos alunos. Depois surgiu a ideia de levá-los para o Recife para conhecer de perto o cenário desse período. Mais tarde, outras escolas passaram a fazer o mesmo, o que me deixou muito feliz. Isso foi há sete anos e já rendeu muitos frutos. Mais recentemente, começamos a ter representatividade no YouTube e no Facebook, inclusive na questão da cidadania. Afinal, eu sou conhecido como o rabino que vai para a periferia, que canta rap, que vai pra‘quebrada’, como se diz – e isso começou a chamar muito a atenção. Fui capa do site Terra, capa do site da prefeitura, apareci em matérias de vários jornais do país etc.

ISAS: Qual a sua opinião a respeito da conversão ou do retorno dos bnei anussim ao judaísmo?

GV: Resumo a resposta a uma afirmação: nosso modelo deve ser o de uma porta, e não de uma muralha. A dimensão das muralhas erguidas ao redor de nossas comunidades hoje é incompatível com a nossa realidade, e o que deveria nos servir como escudo acabou por se transformar nas paredes de uma prisão, sufocando-nos em lugar de nos proteger. É legítimo o medo da assimilação e da dissolução de nossa comunidade em meio à sociedade maior. No entanto, a falta de porosidade e de diálogo, e a blindagem até mesmo física que impede o acolhimento dos bnei anussim e dos prosélitos sinceros e qualificados, além de exclui-los, têm feito com que muitos judeus acolhedores e sensíveis abandonem a própria coletividade, ofendidos por tais posturas. Em relação especificamente aos bnei anussim, seja através do retorno ou do guiur (por dúvida), eu defendo a aplicação das exigências da lei judaica clássica, desde que ela seja depurada de todas as influências ideológicas mais modernas. Estas são pautadas por uma rigidez excessiva que contraria o espírito da lei que é, em sua essência, acolhedora. Também acho que devemos tomar cuidado com o termo ‘conversão’, uma péssima tradução do termo ‘guiur’, que na realidade significa imigração, indicando um processo de naturalização. Seguindo essa lógica, como posso dizer que vou naturalizar alguém que já vive o judaísmo há 10, 20 ou 40 anos, como é o caso de muitos bnei anussim? Sim, repito, estou convicto de que devemos seguir a lei. Devemos, porém, chamar as coisas pelo nome correto para não trair a história e para não ofender estes verdadeiros novos heróis de nosso povo. Esse é um assunto polêmico, que merecia por si só uma entrevista de horas. No entanto, posso resumi-lo assim: em casos em que a lei determina acolher, rechaçar não significa ser rígido, mas sim leniente e descumpridor.

 

[1]Página 269